19.3.09

Pois ganhei um selo que diz que eu devo dizer sete coisas que me fazem sorrir e mais sete blogs que me fazem sorrir. Penso que não conheça nem sete coisas nem sete blogs para dar conta da lista. Vou fazer um esforço, portanto, e não me incomodarei se malograr:

1) algumas crianças capazes dos melhores gritos e das melhores tiúbas e que, ainda por cima, dizem coisas de espantar (ex.: Calvin)
2) todas as crianças cheias de vida que enchem a minha casa batucando, cantando, tocando violão, contando piada, fazendo o que não devem, deixando todo mundo louco de raiva e de amor
3) a criança que meu primo ainda é: músico, doido, lindo, cheio do amor do mundo. a criança que o Guto é que eu não sei pegar. a criança que eu sou, que fica vermelha de vergonha.
4) desisto: CRIANÇA.

Blogs

1) - (blog do Guto)
2) insufilme
3) o delicado da vida
4) coração envenenado
5) tinha o da vó, o sem destinatários, mas ela não escreve mais...

Depois coloco os endereços, pra outros risos.

18.3.09

11.3.09

_ Vou me foder.

Pensou porque estava sendo tão bem fodida que já não fodia mais. Crente de ofício, como era, de que homem só gosta de mulher que fode direito, entreviu em seu comportamento quase angelical o início da queda. E não tardou. Expulsa do paraíso, jurou vingança eterna. Foder todos, para sempre. Pacientemente, esperou o próximo corpo que, evidentemente, comeria frio. Também não tardou a hora. Lambendo os beiços, esfregando as mãos, sem esquecer do que passara e sem descuidar do que viria, comeu devagar, e com cuidado, aquela carne. A carne triste sofria, fodida que estava sendo, como não poderia deixar de ser. Ela, posta de volta a seu pedestal, a lição não esquece: foda, não se deixe foder.
Reduziu os dois maços de cigarro a dois por dia. Juntou dinheiro. Toda a fumaça que ia antes para os pulmões ia agora para o porquinho barato que adquiriu na vinte e cinco. Após um ano, quebrou o gordo. Resultado: 57 x 12 = 684 x 3 = R$ 2052. Pegou o dim e comprou cigarros para os próximos 19 anos, supondo que continuasse fumando dois cigarros por dia, com tamanha disponibilidade em casa. Considerando, depois, a questão da validade, passou a fazer mais um bico, vendendo seus cigarros a preços menos exorbitantes que o usual em baladas e shows badalados. 'Posso fumar quase de graça o resto da minha vida fumante, assim.', pensou. Divertiu-se muito, fumou muito, bebeu muito, vendeu muito e morreu de câncer no pulmão aos 67 anos. Quem liga, se estava dentro da estatística?

p.s.: se as contas estiverem incorretas, perdoem. sei de letras, não de números.
Agradeço. Nesse momento, os culhões de Deus estão preservados. Enxergo apenas sua magnanimidade. Para alguém com tantas máculas, tanto.
Não bato continência a quem não reconheço como autoridade.

8.3.09

o chapeleiro, disse a rainha, está assassinando o tempo. cortem-lhe a cabeça. decepada, a cabeça desgarrada do tempo não mais sabia o que fizesse para comunicar-se com o resto de seu corpo. corpo e cabeça, sem condições de chegarem a uma conclusão conjunta quanto à hora certa, decidiram, cada um por seu turno, instituir a sua hora. desde então, temos sempre de escolher que relógio seguir.
sorriso de ferro
cicatriz de Ulisses
num tropeço, me disseram
umas vozes ancestrais
eu o reconheço.
pedi e São Pedro atendeu. veio a chuva e agora um ventinho gostoso batendo aqui na minha panturrilha. um pouco pelo fim da tarde, um pouco pelas nuvens que encobriram o sol, esta casa que não é minha está escura, o que me fez lembrar de uma casa antiga e minha, onde, por tantas vezes, você esteve. você anda longe, hoje. também eu, aquela casa. eu não o esqueço porque não é forçoso que o faça. e porque, pra toda e qualquer alma, é forçoso guardar alguma beleza, como esta:

um ninho macio
de cheiro de ar quase quente
tecido
na palha trançada do nosso corpo

sinto saudade que você nunca saberá. você também parece meio bruto, mais de inteligência que de sentimento - não entenderia essa saudade. então, tudo de nós dois é meu, é sozinho. não digo com tristeza, não sei como digo. sei que não me importa que você não saiba das minhas saudades nem tenha sabido da minha paixão na época. eu tive a minha felicidade. tenho a memória.

5.3.09

Quando me apaixono não importa: sovaqueira, mau hálito, manchas, cravos e canelas, pelos nas costas e nas costas da mão, no nariz, no lóbulo da orelha, na verruga, as verrugas, dentes amarelos, cáries, falta de dentes, de mãos, braços, pernas, pau torto, minúsculo, brocha, hermafroditismo, miopia, astigmatismo, estrabismo, hipermetropia, surdez, mudez, cegueira, língua presa, problemas com conjugação de verbos, vocabulário inferior a duzentas palavras, afasia, dislexia, amnésia, alzheimer, ser alemão e nazista, italiano e fascista, gaúcho e separatista, estudante de sociais e comunista, estudante de direito e direitista, estudante de letras e letreiro, leiteiro, padeiro, açougueiro, verdureiro, peixeiro, micreiro, micareteiro, pagodeiro, funkeiro, jogador de futebol, chegado num traveco, ser traveco, drag, garoto, transsexual, mulher... só peço pra lavar e enxugar as mãos depois de ir ao banheiro.
A saga de procurar e o que encontro - falas/situações incríveis do fim de semana:

_ Ah, então você é formada em Letras? Eu faço curso de esteticista na Anhembi, mas vou mudar pra Comunicação. Meu sonho fazer Letras, desde criança.

x

_ Olha, eu gosto de ficar à vontade no apartamento.
_ À vontade como? Nu?
_ É, nu.
_ Bem, acho que eu não me sentiria à vontade (a vontade que eu tinha era perguntar: mas você vai estar nu e de pau duro? Porque pau mole é sempre feio. Aliás, o seu pau, duro, é pelo menos engraçadinho? E você é depiladinho ou ainda nem é capaz de aparar com a tesourinha aquela multidão de pelos? Olha, vou te contar, pra tolerar alguém nu circulando na minha frente, tem que rolar uma estética, e não é de minoria...).

x

_ Mansão Ana Rosa, bom dia.
_ ...
_ Suítes individuais, internet wireless, computadores disponíveis para uso comum.
_ ...
_ Tudo bem, eu aguardo a sua visita.

...

_ A luz acabou, não vai dar pra mostrar o quarto.
_ ...
_ O quarto só tem uma janela, a do banheirinho, mas não entra luz do dia.
_ ...
_ São oitenta pessoas na casa e... Olha aí os computadores. Mas, o que adianta? Tem computador, mas a internet não funciona...

1.3.09

Creio que toda gente que lê e escreve tem, em algum momento, vergonha do que escreve, depois de ler, não a si, mas aos outros. Isso me acontece toda vez que visito o Livro do Desassossego, um dos meus livros de cabeceira. Em homenagem a Bernardo Soares, cuja vida tão matéria se encontra sobre minhas pernas sem contudo jamais ter existido, posto um fragmento de seus fragmentos. Também porque nada me ocorreu, nenhuma palavra veio, nenhuma história e sinto que amanhã escreverei, posto que o ritmo da prosa do luso já esteja em mim e que a melancolia da sua palavra virá, daqui a pouco, a ocupar o espaço que lhe é de direito. Por uma frase melhor, minto. Bernardo Soares, ei-lo:
Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra. Vivemos num lusco-fusco de consciência nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser. Nos melhores de nós vive a vaidade de qualquer coisa, e há um erro cujo ângulo não sabemos. Somos qualquer coisa que se passa no intervalo de um espectáculo; por vezes, por certas portas, entrevemos o que talvez não seja senão cenário. Todo o mundo é confuso, como vozes na noite.