24.4.10

cai teu rosto como nuvem
como neve

sobre o meu

é tanto amor

neve em temperatura amena
na língua nuvem doce de algodão

cai teu rosto sobre o meu
pesado e quente o teu sal
ardendo nas minhas feridas

é tanto amor

sobre o meu


then, love will tear me apart again

11.4.10

quando hoje dei por mim, ainda fazia escuro
devia ser cinco e meia da manhã (não que faça diferença)
e não me levantei
não chovia, mas fazia um frio de lascar.
um vizinho indo trabalhar fez um café (eu engoli o cheiro)
e não me levantei
enfiei o nariz debaixo das cobertas e fiquei pensando
pensando no passado
e no por vir.
me beijou a têmpora
pensei: sou tua avó acaso?
mão em concha no rosto
indicador no nariz
agora filha, caralho?
me agarra pelas ancas
enfia dura a pica
de noite a tua égua?
se tu é homem, me diz:
quando tua mulher?

ou tu não é homem?

2.4.10

senão Chagall

canetinhas de todas a cores
para pintar o teu mundo
_ é uma beleza! - eu digo
você, triste de não ter conseguido
a mistura que faria aquela cor
(só aquela!) necessária
'pr'aquele pedacinho ali ó...'
_ necessária, não! - você diz
indispensável! insubstituível!

e, assim, teu mundo (in)acabado.
uma frase para usar em contextos variados:

_ Sou homem, mas não o suficiente pra comer você.
um estudo

sugo o sangue o seio do tempo
de olhos vidrados
duro o peito do tempo
onde não posso me recostar

não me acolhe o tempo
colho do tempo meu próprio fruto
meus o sangue o seio o leite
minha seiva suga o tempo

alerta o tempo o general
em guarda em riste avante!
o tempo não canta cantiga
põe-nos a dormir eternamente