15.4.08

"La he 'matao'. Ahora está callada, la quiero mucho ahora*".

Ora, de onde vem nossa poesia senão do nosso prazer de ver poesia no cara que decapita a mãe e carrega sua cabeça pela rua e diz isso aí de cima?

Pura tragédia grega, não fosse a polícia; não fosse a internet; não fosse ter, a mãe, um rosto.

Já a voz da mãe, contudo, ainda é poética e grega. A sibila disse:

"Al final terminaré yo muerta e mi hijo acabará en la cárcel".




* alguns jornais omitiram o 'ahora'. ou: alguns jornais acrescentaram o 'ahora'.

11.4.08

A Drummond

Para mim, o 'engano da alma, ledo e cego/que a fortuna não deixa durar muito', de Camões, é inquestionavelmente a melhor definição de amor em poesia.

Vale muito mais que um beijo. Vale um serviço completo.
São os do Norte que vêm ou Dizem os daqui

Mas o que é que você veio fazer aqui?
Mas por que é que você saiu do Tocantins pra vir pra cá?
Mas por que é que você veio de/pra tão longe?
Mas por que é que você deixou sua família?
Mas por que você veio pra São Paulo?
Mas por que você escolheu vir pra tão longe?
Mas o que é que você está fazendo aqui?
O que é que você está fazendo aqui?!

9.4.08

A Camões

Um 'ledo engano' é tão enganoso quanto o adjetivo infeliz que o caracteriza.

3.4.08

Em busca do intelectual pintudo, disparou ao professor um tanto sexy, após a aula:

_ Sei fazer poemas e boquetes. Muito bem.

1.4.08

Felicidade foi-se embora
E a saudade no meu peito
Ainda mora
E é por isso que eu gosto
Lá de fora
Porque sei que a falsidade
Não vigora

Felicidade era quem brincava comigo quando eu era criança, mas ela ficou grande depressa e eu continuei pequena. Foi ela que me disse que um dia eu brigaria com todo mundo, que não suportaria tanto mimo e tanta proteção. Ela me disse: 'Você vai ver.' E eu vi mesmo. Mas até então tudo me parecia até agradável. Para ela, não era. Até porque de quando em quando eu ainda gostava de puxar-lhe os cabelos e mordê-la. Para ela não era também porque não era nossa filha, não era irmã nem mãe minha. Felicidade era nada. Felicidade ficava presa ouvindo os outros lhe ralharem. Felicidade não entendia que direito tinham de não a deixarem sair quando quisesse, namorar os homens que quisesse, estudar ou não estudar. Felicidade precisava sair de lá, da minha casa. Felicidade já não achava graça em mim, nem no resto. Felicidade queria ir. E foi-se.

Quando Felicidade cresceu de vez, foi-se embora pra cidade grande.
Depois, trocou de nome.