Creio que toda gente que lê e escreve tem, em algum momento, vergonha do que escreve, depois de ler, não a si, mas aos outros. Isso me acontece toda vez que visito o Livro do Desassossego, um dos meus livros de cabeceira. Em homenagem a Bernardo Soares, cuja vida tão matéria se encontra sobre minhas pernas sem contudo jamais ter existido, posto um fragmento de seus fragmentos. Também porque nada me ocorreu, nenhuma palavra veio, nenhuma história e sinto que amanhã escreverei, posto que o ritmo da prosa do luso já esteja em mim e que a melancolia da sua palavra virá, daqui a pouco, a ocupar o espaço que lhe é de direito. Por uma frase melhor, minto. Bernardo Soares, ei-lo:
Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra. Vivemos num lusco-fusco de consciência nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser. Nos melhores de nós vive a vaidade de qualquer coisa, e há um erro cujo ângulo não sabemos. Somos qualquer coisa que se passa no intervalo de um espectáculo; por vezes, por certas portas, entrevemos o que talvez não seja senão cenário. Todo o mundo é confuso, como vozes na noite.


3 Comentários:
Que um beijo te proteja o tempo do fôlego, Tá... muita arte!
fôlego curto na volta e sem melancolia. beijo de respiro.
concordo em gênero, número e grau ;-)
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