12.1.11

Vejo azul céu de domingo em São Paulo
Passam pássaros esparsos, asas espalhadas
Aviões
Voam caem com leveza de papel
São Paulo impensável de domingo
Desejo?
Fazer durar a tarde
De uma tarde que não acabe
Fazer vagar e errar a hora
Prender o tempo em seu próprio labirinto
Quase cantiga de liberdade

Saí a salvo e sem saudade
Da loucura que nos uniu
Se isso é certidão de idade
Vai poder dizer quem viu

Hoje dou vivas à sanidade
E mais ainda à alegria
Talvez mesmo felicidade
Sem a sua companhia

Sem a sua, sem a sua
Sem a sua companhia...

22.12.10

eu ouvi dizer que você anda por essas ruas de vez em quando. nunca tive o desprazer de te encontrar, mas esse texto é pra que você ouça de alguém que é melhor se mandar. essas agora são as minhas paradas. não quero saber de você por aqui, entendeu? se te pego passando em frente a minha casa te arrebento. que, aliás, é o que eu deveria ter feito há muito tempo. vê se se toca, seu filho da puta. já não basta eu ter que encontrar a vizinha que você comeu? e na padaria eu tenho de ir em outro horário, porque o cara das sete pergunta de você. no banco, o gerente me olha como se eu precisasse de ajuda sempre e eu quase soco ele, como socaria você se te encontrasse. na banca de jornal a mina que dava em cima de você acha que talvez você "'seje' meio maluco". eu disse que você é um normal filho da puta que talvez "'teje' a fim de te comer se botar meio litro de silicone, sua lisa". no bar me perguntam se eu quero a sua cerveja, quando não trazem direto a marca pra mesa. puta saco.

essas são as minhas paradas, entendeu? se te pego por aqui te encho de porrada.

8.12.10

Que esse cansaço seja antes
O sumo, a essência cítrica da chama
Bile em êxtase que se derrama
Gengiva jorrando o sangue quente

Antes irritadiço, nervoso e líquido
Paranóico, histérico, cínico
Incontrolável desejo do abismo
Prestidigitador cismo

Antes tudo antes que apenas
Uma vontade de sono, um dengo
Uma prece chorosa, uma querência

Antes tudo antes que apenas
Do corpo torto o desapego
O ir-se embora, cadente
Ele:
_Acho que estou gostando de você.
Ela com olho arregalado:
_De quem? De mim?
_É. Você é uma mulher bonita, inteligente. Uma ótima companhia. Fora que eu morro de tesão por você.
_Ah. Obrigada. Eu também acho você legal.
_Eu quero namorar você.
_Quem? Eu?
_É. Acho que a gente tem tudo pra dar certo junto. A gente se vê já faz algum tempo e acho que dá pra passar pra uma outra fase, entende? O que você acha?
_Quem? Eu?
_É. Você acha que também se dá bem comigo? Quer namorar comigo?
_Ã... Eu acho que a gente podia terminar agora.
_Hein? Mas se você disse que também me acha legal...
_É verdade, uai. Eu também acho meu porteiro legal e mesmo assim não namoro com ele.
_Mas você também não tem um caso com ele? Não é?
_É... Melhor a gente terminar agora.

24.11.10

com as tuas mãos me fiz um carinho
com as tuas mãos frias me fiz
infeliz sem ter mais que:
tuas mão frias.

com teus lábios frios me dei um beijo
com teus lábios frios me dei
adeus aos beijos teus:
teus lábios frios.

e em teu coração inerte pousei um rosto quente e contrito
e lágrimas quentes e contritas irrigaram tuas veias de novo sangue
e voltaste à vida:

se deus existisse, a história possível.
mas deus não existe e finda o fim disso.





18.11.10

como com os olhos tuas palavras
de ti é o que ainda tenho
bem que não seja meu

o gosto das tuas palavras
na minha língua traz
o gosto da tua língua
ai que saudade

sobe à cabeça tão fina cocaína
eu fecho os olhos as tuas palavras
os teus olhos tristes

fecho os olhos os teus olhos tristes
como eu os amo
vou gozar agora

tua barba me roça o pescoço
tuas mãos
me apertando as nádegas
as tuas palavras jorram

acaricio as tuas palavras
gozo e choro em duas leituras
nunca contentamento
vejo agora esta tela lisa inquieta
reflete e não a minha cara pois a vejo
me reflete melhor que me vejo
frente ao espelho o olho
e palavra

11.11.10

Série Diálogos Incerteiros

No melhor do beijo, de olhos fechados, sem perceber, ela:
_Te amo.
Ele para assustado o exercício:
_Hein?!
Ela, voltando a si, sem jeito, diz:
_Oi...É...Desculpa.
_...
_Tava pensando em outra pessoa.
Ele suspirando de alívio:
_Ah! Ufa! Que bom! Ainda bem! Hehehe...
E a beija no recomeço.

31.10.10

Apareceu que nem uma aparição. A cara branca de pó de arroz e muito lápis preto, escorrendo pelo canto dos olhos. Pediu uma cerveja e eu no balcão tentando fingir que achava tudo muito normal falei são 5 reais paga aqui pra mim. Ela tirou um dinheiro sujo amarrotado do cano da bota. Eu abri a long neck e ela bebeu de um gole metade da cerva. Eu era nova no bar e nunca tinha visto uma mina louca assim. Me olhando com aquele olho de peixe morto disse vem aqui eu quero te perguntar uma coisa. Ao pé do meu ouvido: já chupou uma buceta quer agora a que horas sai... Eu fiquei assustada e nervosa sabe como é aquele nervosismo bem dentro da calcinha. Falei daqui a uma hora. Ela então falou beleza eu te espero gata.

E desmaiou em cima do balcão.
porque nada temos, precisamos dizer: temos a vida.