27.2.09

o velho não precisava dizer 'essa fiz pra mim, qualquer dia me sirvo'. era bastante o fio de baba escorrendo no canto da boca entreaberta enquanto secava a menina mais nova. amolando a faca na pedra, fixava o corpo sem rosto, cabelo comprido abaixo da cintura, de vestido imóvel na tarde sem vento. uma finíssima corrente de suor, que ameaçava romper o cordão do meio da perna, indo parar na batata morena e lisa, dava ao pai idéias de corrê-la ao contrário, investigar onde era a nascente. se a mãe não estivesse ali, chamaria a pequena a brincar:
_ Cadê o bolim que tava aqui?
_ Gato comeu.
_ Cadê o gato?

3 Comentários:

Blogger Eduardo Matzembacher Frizzo disse...

Sua escrita é dura mas você é uma esponja, ainda que, como falou esses dias, seja uma esponja etílica. Gosto dessa sua dureza fêmea que me põe nervoso e com vontade de discutir contigo por horas. Mas quanto a tudo isso, hoje pela primeira vez postei um poema no blog. Chama-se Ao modo de Sá Carneiro. Gostaria da sua opinião. No mais, moça paulista, por hora apareça pelas plagas gaúchas, terra vermelha de gente que chimarreia de praça em praça, e que, apesar de carregar tantas falsidades, traz consigo a saudade de um tempo que já nem sei. Eu nem conheço você mas gosto disso que você é. Um beijo e estás perdoada por não ler o texto inteiro, ainda que ele seja (com nenhuma humildade) muito bom.

27/2/09 03:24  
Anonymous tagg disse...

Veja, ainda que me diga tantas vezes 'moça paulista' (aliás, você já notou que nunca fiz qualquer menção a sua gauchice tão publicizada?), ainda que me diga 'asfalto', eu digo não. Eu não sou daqui, sou de onde vim, o que é irremediável. Sou terra mais que asfalto, mas a minha terra é diferente da sua - é dura, sim. Sem as maciezas :) de mães que dêem a mão, de dias frios em que é desejável, e possível, o melhor cobertor, de risos soltos, de corações abertos. Não tenho asfalto nem ferro na alma. Minha alma é cristal de segunda e ouro do tolo (o mesmo dos rios da infância, na fazenda de vovô).
Gosto de você e falaríamos durante horas.

1/3/09 11:50  
Blogger Felipe :-D disse...

e não é que a inspiração bateu? me lembre de te contar a história dos lactobacilos e do coroa que eu encontrei hj no daspu dando em cima de uma sapa ;-)

22/3/09 00:34  

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